segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Cortázar



Contudo, detrás de toda e qualquer ação, havia sempre um protesto, pois todo fazer significava sair de para chegar a, ou mover algo para que ficasse aqui e não ali, ou entrar numa casa determinada em vez de entrar ou não entrar na casa ao lado, significando isso que em qualquer ato havia sempre a confissão de uma falha, de algo ainda não feito e que era possível fazer, o protesto tácito diante da contínua evidência da falha, da mesmice, da imbecilidade do presente.

(Júlio Cortázar, p. 14)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Fauno Incauto

[Ilustração de George Barbier mostrando Nijinsky como fauno, dançando o balé L'après-midi d'un faune] 


Fauno incauto
que atravessas, sorrateiramente,
a porta da noite escura

em passos lentos
com beijos sedentos
toca a doce boca
da flauta de pã

Fauno incauto
de incerto destino
que desatina
meu juízo

em braços longos
com abraços mornos
toca essa alma

Fauno incauto 
que bailas
na floresta escura
da vida

em doces toques
com suspiros em frenesi 
ri de si mesmo
em ânsia pagã

Fauno incauto
de grandes cílios
que encobrem
o meu mundo

em um piscar 
de delicadeza profunda
que abre a manhã.

[Jac. 06/12/12]

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Mudança

Partir, ficar
as vezes que fui, fiquei

Quintaneando

Epílogo

Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cristal! Não se sabe...Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca...Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade. 

[Mário sempre Quintana]

domingo, 4 de novembro de 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Leminskiando

parar de escrever
bilhetes de felicitações
como se eu fosse camões
e as ilíadas dos meus dias
fossem lusíadas
rosas, vieiras, sermões

(Paulo Leminski, Caprichos & Relaxos)

parar de sofrer
tanto por te amares
como se eu fosse álvares
e as liras dos meus dias
fossem cítaras
embalando tristezas tumulares

(Jac, 19/10/2012)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O amor acaba


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas;

na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão;

como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão;

às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas;

quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina;

no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero;

nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba;
no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba;

uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros;

e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo;
na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo;

às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno;

em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

(O amor acaba, crônica de Paulo Mendes de Campos)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Saramaguiando

"Porque, enfim, podemos fugir de tudo, não de nós próprios."

(Memorial do Convento, José Saramago, p.68)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pausa



Pausa.

Espaço necessário entre o lá e o aqui.
Entre o passado e o presente.
Entre o eu e o mim.
Entre o poço e o fosso.
Entre o eu e o nós.

Pausa.

Fim da pausa.
Reinicio da causa.

[Londrina, 10/10/2012]

Entre Minas, São Paulo e Londrina

[Nantes, Beirut]


Enquanto toca Beirut vejo a metrópole se perdendo lá embaixo. Gosto dessa sensação de vê-la de cima, nesse horário em que o sol está se pondo e as luzes começam a acender. Há as luzes dos carros cruzando rios, pontes, viadutos. Há as luzes amarelas, brancas, opacas que pipocam nas janelas do prédios. E então a fumaça, a poluição e as nuvens vão formando um escudo entre minha visão e o que já quase não vejo.  E já não vejo mais cidade alguma. E percebo que, como esse escudo, há um embaçamento em minha vida. Como a solidão dentro de mim, nesse fim de sábado de viagem mineira e uma saudade não sei exatamente do quê.

[ Sábado em trânsito 06/10/2012]